quarta-feira, outubro 01, 2008
 
:: Dos pitos


Os parisienses são bravos à beça. Por alguma razão que me escapa, passam a vida a bufar. Sério. Nada é mais típico num francês do que isso. Esqueçam boina, cachecol, baguete no sovaco. Se você realmente quer se misturar com eles o negócio é sair bufando mal-humoradamente.

Em menos de um mês aqui eu  já tinha tomado umas broncas cabulosas. De gente que não me conhece, atenção. Vou fazer uma pequena compilação dos pitos mais notáveis até aqui:

* Primeiro a zeladora do prédio me passou um sabão. Com razão, admito. Na confusão de entrar com o carrinho, eu esqueci a chave espetada do lado de fora da porta de entrada. Ok, eu fui idiota e uma coisa dessas não se faz. Mas gente! Dá um desconto, pô! Estrangeira, perdida, sem falar a língua, chegada há apenas duas semanas, ainda um pouco atrapalhada e com um bebezinho adorável à tiracolo. Fora o sorriso simpático, o ar humilde e aquela malemolência brasileira que pra tudo dá um jeito. Pois não deu jeito: tomei uma bronca federal. A mulher falou comigo como se fosse minha mãe - e digo isso simbolicamente, porque a minha mãe brigaria comigo uns 3 tons abaixo daquilo. Ela bufou (óbvio) sacudindo as chaves na minha cara, falou uma dúzia de coisas, me mandou um olhar de "é patza?" e saiu. Ui que nervios! E assim fui introduzida à rispidez francesa.

* Depois tomei uma bufada de um mendigo que dormia na rua. Um mendigo invisível. Não estou falando de invisibilidade social nem nada sociológico do tipo, ele estava invisível de fato, enfiado no meio de uns panos, embaixo de caixas, encostado em uma coluna de concreto. Fez seu cafofo na frente da vitrine de uma "galeria de pequenas invenções" (adoro!), e me bronqueou porque eu falei OH! para alguma maluquice ali e devo tê-lo acordado - eram umas 11 da manhã. Não bastasse tomar a bronca, ainda tomei um susto espetacular com aquela pilha de papelão resmungando em alto e bom som.

* Aí teve o motorista gentil. Eu estava esperando na faixa pra atravessar a rua e ele vinha vindo devagar. O farol estava aberto pra ele, então esperei (pedestre formada e graduada em São Paulo, gente! Sou doida?). Como eu não ia, ele ficou puto e me mandou um "anda, caralho!" em francês, acenando com mão pra eu passar depressa porque ele educadamente estava me dando passagem. Ah tá. Gentileza à francesa. Merci meu senhor, e vá-te a merda.

* Por fim, a melhor de todas. Essa, felizmente, não foi dirigida a mim. O alvo do pito, pasmem!, foi Alice. A autora do pito, double-pasmem!!, foi uma guriazinha de uns 2 anos de idade. Foi na primeira vez que fomos no tanquinho de areia. Alice estava sentadinha, de baldinho na mão, toda pimpona. Feliz e empolgada, estendia o baldinho pras crianças em volta, tentando fazer amizade. Numa dessas, bloqueou a passagem da menininha com o braço. Resposta: a menina deu-lhe um safanão ríspido e despejou um bocado de resmungos em cima da minha filha, dedinho em riste e tudo. Não entendi picas, of course, mas acredito que ela tenha usado termos chulos e ofendido geral. Eu fiquei olhando passada, com muita vontade de rir e de estapear a menina ao mesmo tempo. Mas aprendi que o parquinho tem uma dinâmica toda próprias e os adultos só devem interferir quando for realmente grave (vou desenvolver esse assunto qualquer dia no guiapratico...). Aquilo ali era chocante pra mim, mas grave não era - sobretudo porque Alice também não entendeu nada, não se ofendeu e nem amarelou. Na verdade ela nem percebeu a bronca, de tão embasbacada que estava com aquela areia toda. Que é o que eu vou fazer de agora em diante. Embasbacar. Dar migué. Ficar com cara de sonsa a cada bronca que tomar, hein?, pardon, é comigo? Porque alguma vantagem a gente tem que ter de não entender a língua  - e a braveza - desse povo.