sexta-feira, outubro 03, 2008
 
:: Meu ex-futuro promissor


Então eu era uma guriazinha que lia compulsivamente tudo que caía na minha mão. Uma pequena intelectual. Gozei (até hoje, provavelmente) da fama de ter lido Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos aos 10 anos de idade - uma mentira espetacular. Mas li um bocado de Rubem Fonseca desde lá até agora. E escrevi redações que foram elogiadas. E ganhei uma medalha de plástico num concurso entre escolas, por conta de uma redação que contava que quando eu era pequena queria pintar um bigode pra ir na festa junina, como meu irmão e meus primos.

Então mamãe dizia que eu ia ser escritora - e eu queria ser veterinária.

Minha mãe insistiu pra eu ser escritora, mas eu prestei vestibular pra rádio e tv. Passei, cursei, me formei, trabalhei um bocado de anos na MTV e mais alguns em outras produtoras por aí. Aí deu bode.

Minha mãe falou pra eu virar escritora, mas eu fui fazer faculdade de gastronomia pra virar chef. E a faculdade era uma diversão louca mas eu percebi que não tenho o menor talento pra chef. 

Minha mãe então sugeriu que eu virasse escritora, mas fui estudar café. Aprendi a cheirar, fazer degustação-cega, diferenciar as espécies, contar os defeitos dos grãos crus. Fui fazer um mini-estágio numa fazenda em Minas, comi o fruto do café bem docinho, vi a florada, linda branca perfumada. E fiz curso de barista, e fui trabalhar atrás do balcão do Havanna oito horas e meia por dia, seis dias por semana, ganhando mal. Minha mãe, coitada, pensava assim: minha filhinha estudou tanto (oi, mãe?), fez boas escolas, se formou na USP, e tá aí queimando a mão na máquina de café e esfriando na pia de lavar louça. Por que não virou escritora, por quê??

Então eu engravidei, enjoei horrores com cheiro de café, pedi demissão e virei mãe em tempo integral. Vivendo essa fase maluca, resolvi alimentar esse blog das experiências todas da maternidade. 

E o blog começou a me divertir. E divertir outras pessoas. E rendeu uma indicação de uma amiga querida, e por conta da indicação um convite pra se associar a um portal feminino, pra ser o "blog da mamãe" linkado ao site. E esse novo blog vai muito bem, me divertindo horrores e me dando de presente um monte de gente legal. Minha mãe dá pulinho de alegria e orgulho e eu, tadinha, entro nos delírios dela e das minhas amigas que falam que eu tenho que escrever um livro e penso, puxa!, sou praticamente uma escritora, quem sabe eu não posso de fato viver disso um dia?


Corta. 


Acabei dia desses,  à 1h da manhã, o "Reparação", do Ian McEwan. Chocada, passada, arrebatada. Emocionadíssima, o coração aos pulos.

Caralho. CARALHO.

Isso é escritor, mãe.  Sua filha é um arremedo chinfrim de cronista engraçadinha, e olhe lá. 

Esse cara sim é escritor. 

Caralho.

(Eu podia continuar com esses "caralhos" por horas, pra desgosto da minha mãe, haha... mãe, um verdadeiro escritor teria algo mais a dizer além de "caralho", pode apostar!)


Então people, larguem esse blog besta e corram pra ler Reparação agora, já! É sério! (Menos a parte do "larguem o blog", isso me deixaria arrasada...)