terça-feira, abril 01, 2008
 

Eu tinha um salsicha bravinho chamado Dust. Amava o bichinho por razões que a própria razão desconhece, porque ele era terrível. Desses pequetitos invocados, sabe? Aquela arrogância invertida dos baixinhos, como disse certa vez Chico Buarque. Do alto dos seus 25 cm de altura, ele tinha a ambição maluca de ser o líder da casa. Mandava no Chicão, por exemplo, que é um labradorzão. E sempre disputou - na porrada - a liderança com nós, humanos.

Tomei mordida do Dust nos nossos 16 anos de convivência. Depois que ele perdeu os dentes, inclusive. Eu achava o fim do mundo as mordidas de gengiva dele. Mesmo. Era patético. Ele rosnava, franzia a fuça e atacava, um espetáculo deprimente e sem sentido que eu nunca entendi. Aí ele morreu, e foi horrível, e eu sinto saudade até da agressividade banguela e ridícula dele.

Pois não é que agora a Alice deu de me morder com a gengiva? Quando ela tá sentadinha na cama e eu deito a cabeça no colo dela é batata: ela vai tombando pra frente, bocão aberto, e nhac na minha bochecha (ou olho, ou nariz, ou testa). Mordidão de gengiva, bem babado! Às vezes ela muda de estratégia e dá um bote rápido quando eu tento beijá-la. Eu vou chegando pro beijo, ela faz que não notou e de repente tchum! vira a cabeça e tenta morder o que estiver ao alcance da boca. Eu adoro, claro! Porque, diferente das gengivadas do Dust, as da Alice são mordidas de amor. E ela tem um bafinho gostoso de leite, infinitamente superior ao budum dele, que era de matar.

Enfim, andei lembrando do Dust por conta disso. Pensei em botar uma foto dele desdentado pra ilustrar o post, mas me pareceu falta de respeito com o finado. Aí achei essa, de 1990: Dust com 2 meses, mostrando como seria a nossa vida dali pra frente. A vítima é minha mãe.