terça-feira, julho 24, 2007
 

:: Dos medinhos


Eu não sei que tipo de mecanismo regula esse fenômeno, mas ele existe: mulheres à beira de dar à luz perdem o medo do parto.

Chocante!

Parir é um dos cagaços universais da mulherada (converse com meia dúzia de amigas pra saber), mas na hora do vamos ver a gente entra em comunhão com a Mãe Terra, encarna a deusa da fertilidade e adquire a calma de um Rinpoche. Entrou tem que sair, baby. É a lei da natureza. Então a gente se resigna e acha lindo e diz amém. Tenho visto muito isso acontecer, aquelas grávidas estourando de barrigudas e com aquela expressão serena de quem sabe o que ninguém mais sabe. Cara de informação privilegiada, sabe como? Uma calma transcendental. Não sei que milagre é esse, mas acontece. A invenção da anestesia deve ter alguma coisa a ver com isso.

É bom que seja assim, porque a mulher grávida é por definição uma criadora de pavores criativíssima e incansável.

Há os medos-padrão: medo da responsabilidade, de botar um filho no mundo doido de hoje, da criança nascer com algum problema, complicações, 6 dedinhos nos pés, etc etc. Esses são universais e relevantes e continuarão existindo até o fim dos tempos. E existem aqueles medinhos específicos de que pouco se fala. São medinhos fúteis, que abafamos pra não parecer que estamos invertendo o valor das coisas. Como todo mundo diz, o importante é vir com saúde, o resto é lucro. Claro. Mas o resto é importantíssimo quando a grávida é você. E dá-lhe medos fúteis: e se a anestesia não pegar? E se eu fizer cocô na hora do “empurra, empurra!”? E se meu filho nascer feio e eu não conseguir mentir que achei ele bonito? E se a barriga não voltar e eu ficar buchuda para todo o sempre? E se meu filho continuar careca e gengivudo até a pré-escola? Por aí vai.

O meu grande medinho-fútil é o do peito rachado. Só o termo já me dá arrepios. Conforme a gravidez avança também avança a necessidade mórbida que os outros têm de te assustar, e você descobre que o parto não é nada comparado com a primeira semana de amamentação. Dizem que dói pacas até o peito engrossar, ficar cascudo e a prova de puxões (e aí você pensa: o que é pior, peito cascudo ou peito rachado? Sinuca de bico...). Os relatos são pavorosos: o bico sangra, as mamas (reparem que peito de grávida sempre vira “mama”) endurecem, vem uma bactéria e faz o leite virar polenguinho. As mães choram, batem o pé e fazem careta – mas não tiram o filho do peito, que espécie de mãe tiraria? Você já está considerando seriamente contratar uma ama-de-leite, ainda existe isso?, quando vem alguém e te indica ações preventivas que vão salvar seus peitos e as mamadas do seu filho: esfregar o peito com bucha no banho e tomar bastante sol. Bora engrossar esses mamilos, mulherada!

No meu caso, esfolar os peitos com a buchinha não é uma opção. Difícil contar isso aqui sem adentrar em detalhes íntimos, mas basicamente é o seguinte: na gravidez os mamilos pulam pra fora como mini dedinhos e a impressão é que vão descolar e cair no chão a qualquer momento. Esfregá-los diariamente não é de forma alguma uma possibilidade. Então me sobrou o sol. Ok, parece fácil e até divertido.

Segue então uma breve historinha da minha primeira e única tentativa de bronzeamento peitoral:

Carlos viajou e eu fui ficar uns dias na casa dos meus pais (e minha casinha da vida inteira) pra matar a saudade, ser mimada e tomar horrores de sol – o quintal lá é mais reservado do que o daqui.

Eram umas 11 da manhã. Sentei-me na grama, levantei a blusa e puxei a calça de moletom até cobrir a barriga – a preguiça de passar protetor solar exigia tais cuidados, de modo que me encapotei toda deixando apenas a linha dos mamilos de fora. Até um chapéu de palha estilo Verão de 78 em Ibiza eu arranjei. Então eu estava ali sentadona, de chapelão, óculos de sol, peitolas de fora, muito digna, tomando meu solzinho. E aí vejo passar por mim um par de pés desconhecidos.

Acontece o seguinte: meu irmão é professor de yoga e dá aulas em casa, num salão no fundo do quintal. Óbvio que isso foi considerado por mim quando decidi fazer um embaraçoso topless no quintal, mas a aula tinha terminado às 10h30, portanto não haveria mais aluno nenhum pra testemunhar aquele triste espetáculo.

Isso era o que eu pensava, mas o fato é que passaram os tais pés, carregando uma moça com cara de assustada. Era uma aluna que tomava banho ali mesmo pra ir direto pro trabalho, o que explicava sua presença naquela hora. Cumprimentamo-nos cordialmente como se nada fosse, me cobri discretamente como se nada houvera e ficamos ali, 15 segundo de silêncio mortal, as duas tentando fazer crer que tomar sol de chapéu de palha, moletom até os peitos e mamilos de fora é algo absolutamente normal. Aí ela seguiu andando e, antes de chegar no portão, se virou e disse: Faz muito bem. Eu tomei bastante sol no peito e consegui amamentar até os 11 meses.

Oh God! Ela ainda foi fofa! Se eu não estivesse quase chorando, teria perguntado se ela me emprestava a casa dela para as próximas sessões.