sexta-feira, junho 08, 2007
 

No princípio era o nada.

Você nada sente. Nada vê no ultrasom. Se concentra e tenta se conectar com a barriga: nada. A própria barriga ainda é o (quase) nada de sempre.

A única coisa que você tem é: de repente ficou chata, burra e incapaz de ir ao banheiro (a não ser pra vomitar). Parece que arranjou dois problemas sérios, um gástrico e um neurológico. É bom mesmo que haja uma outra coisa pra justificar, e se essa outra coisa envolver um bebê rosinha e bochechudo no fim de uns meses, melhor ainda. Gravidez, nos primeiros meses, é puramente uma questão de fé.

Com 3 ou 4 meses você não está mais chata, mas continua bem burra (aliás, a burrice acompanha o processo todo e é chamada de síndrome cerebral: o sangue do seu corpo esquece da cabeça e desce todo pro baixo ventre. Isso explica derrubar coisas, atravessar a rua perigosamente e esquecer o número do seu celular). A situação do banheiro se resolveu e as coisas entram e saem por onde deveriam, como Deus quis. A barriga já dá sinais, mas tem aquela cara de pancinha sem-vergonha de chopp e talvez você ainda receba uns olhares feios no ônibus quando sentar nas cadeiras reservadas. Mas, de novo, nem sinal de alguém lá dentro. Você fecha os olhos, põe as mãos e se esforça muito pra estabelecer uma comunicação, e a única coisa que percebe é o seu umbigo sendo ejetado dia após dia. Neste momento, tentar cantar para sua barriga ou desenhar nela uma carinha sorridente só vai te fazer sentir ridícula. Não recomendo.

A coisa vai ficando divertida lá pelos 6 meses, quando um belo dia sua barriga - que nesse ponto já é uma barriga de responsa e pode ser ostentada, principalmente no ônibus!, como um troféu - começa a quicar. Primeiro timidamente, ataquezinhos de soluço. Depois furiosamente, e você acredita que está gerando um polvo capaz de cutucar em-cima-à-esquerda e embaixo-à-direita e centralizadamente-ao-centro, tudo ao mesmo tempo agora, uma coisa enlouquecedora.

Então aí está. Existe mesmo uma pessoinha embutida dentro de você. Uma pessoinha que gosta de Piazolla (orgulho, orgulho!!), te acorda todo dia com um chacoalhão às 7h30 da manhã, reage ao sol e detesta quando você espirra. Que fica tímida com platéia e mata mamãe de vergonha toda vez que ela diz: venham, venham, está mexendo! e coloca as mãos das 8 pessoas ao redor na barriga e nada acontece por longuíssimos 2 minutos, estava pulando ainda agorinha, mas parou, que pena, ah, então tá, e aí as mãos todas saem e é o código para a pulação começar outra vez, e assim a brincadeira segue, e assim eu perco todo o crédito que outrora tive com meus amigos.

O legal de finalmente sentir que tem alguém aqui é que eu posso comer por 2 sem sentir um pingo de culpa (essa é uma picaretice ancestral das grávidas, mas só vale pra quem engordou pouquinho, ok meninas?). O chato é que eu ando culpada de falar tanto palavrão. Baixou a mãe em mim, quem diria?