quinta-feira, agosto 10, 2006
 
CARTA ABERTA AO BRADESCO

Senhores Diretores do Bradesco,

Gostaria de saber se os senhores aceitariam pagar uma taxa, uma pequena taxa mensal, pela existencia da padaria na esquina de sua rua, ou pela existencia do posto de gasolina ou da farmacia ou da feira, ou de qualquer outro desses servicos indispensaveis ao nosso dia-a-dia. Funcionaria assim: todo mes os senhores, e todos os usuarios, pagariam uma pequena taxa para a manutencao dos servicos (padaria, feira, mecanico, costureira, farmacia etc). Uma taxa que nao garantiria nenhum direito extraordinario ao pagante. Existente apenas para enriquecer os proprietarios sob a alegacao de que serviria para manter um servico de alta qualidade. Por qualquer produto adquirido (um paozinho, um remedio, uns litros de combustivel etc) o usuario pagaria os precos de mercado ou, dependendo do produto, ate um pouquinho acima. Que tal?

Pois, ontem sai de seu Banco com a certeza que os senhores concordariam com tais taxas. Por uma questao de equidade e de honestidade. Minha certeza deriva de um raciocinio simples. Vamos imaginar a seguinte cena: eu vou a padaria para comprar um paozinho. O padeiro me atende muito gentilmente. Vende o paozinho. Cobra o embrulhar do pao, assim como, todo e qualquer servico. Alem disso, me impoe taxas. Uma "taxa de acesso ao paozinho", outra "taxa por guardar pao quentinho" e ainda uma "taxa de abertura da padaria". Tudo com muita cordialidade e muito profissionalismo, claro.

Fazendo uma comparacao que talvez os padeiros nao concordem, foi o que ocorreu comigo em seu Banco. Financiei um carro. Ou seja, comprei um produto de seu negocio. Os senhores me cobraram precos de mercado. Assim como o padeiro me cobra o preco de mercado pelo paozinho. Entretanto, diferentemente do padeiro, os senhores nao se satisfazem me cobrando apenas pelo produto que adquiri. Para ter acesso ao produto de seu negocio, os senhores me cobraram uma "taxa de abertura de credito" - equivalente aquela hipotetica "taxa de acesso ao paozinho", que os senhores certamente achariam um absurdo e se negariam a pagar.

Nao satisfeitos, para ter acesso ao paozinho, digo, ao financiamento, fui obrigado a abrir uma conta corrente em seu Banco. Para que isso fosse possivel, os senhores me cobraram uma "taxa de abertura de conta". Como so e possivel fazer negocios com os senhores depois de abrir uma conta, essa "taxa de abertura de conta" se assemelharia a uma "taxa de abertura da padaria", pois, so e possivel fazer negocios com o padeiro depois de abrir a padaria.

Antigamente, os emprestimos bancarios eram popularmente conhecidos como "Papagaios". Para liberar o "papagaio", alguns gerentes inescrupulosos cobravam um "por fora", que era devidamente embolsado. Fiquei com a impressao que o Banco resolveu se antecipar aos gerentes inescrupulosos. Agora ao inves de um "por fora" temos muitos "por dentro".

Tirei um extrato de minha conta - um unico extrato no mes - os senhores me cobraram uma taxa de R$5,00. Olhando o extrato, descobri uma outra taxa de R$ 7,90 "para a manutencao da conta" - semelhante aquela "taxa pela existencia da padaria na esquina da rua".

A surpresa nao acabou: descobri outra taxa de R$ 22,00 a cada trimestre - uma taxa para manter um limite especial que nao me da nenhum direito. Se eu utilizar o limite especial vou pagar os juros (precos) mais altos do mundo. Semelhante aquela "taxa por guardar o pao quentinho".

Mas, os senhores sao insaciaveis. A gentil funcionaria que me atendeu, me entregou um caderninho onde sou informado que me cobrarao taxas por toda e qualquer movimentacao que eu fizer. Cordialmente, retribuindo tanta gentileza, gostaria de alertar que os senhores esqueceram de me cobrar o ar que respirei enquanto estive nas instalacoes de seu Banco.

Por favor, me esclarecam uma duvida: ate agora nao sei se comprei um financiamento ou se vendi a alma? Depois que eu pagar as taxas correspondentes, talvez os senhores me respondam informando, muito cordial e profissionalmente, que um servico bancario e muito diferente de uma padaria. Que sua responsabilidade e muito grande, que existem inumeras exigencias governamentais, que os riscos do negocio sao muito elevados etc e tal. E, ademais, tudo o que estao cobrando esta devidamente coberto por lei, regulamentado e autorizado pelo Banco Central.

Sei disso. Como sei, tambem, que existem seguros e garantias legais que protegem seu negocio de todo e qualquer risco. Presumo que os riscos de uma padaria, que nao conta com o poder de influencia dos senhores, talvez sejam muito mais elevados.

Sei que sao legais. Mas, tambem sei que sao imorais. Por mais que estejam garantidas em lei, tais taxas sao uma imoralidade.

Brasilia, 30 de maio de 2006.

Delman Ferreira