sábado, junho 12, 2004
 
:: os versos

desde que parei com o parachutes para me dedicar a escrever uma história longa ando revisitando as coisas que escrevi. e puxa vida, escrevi muita coisa. 70% é bem imprestável devo admitir, mas 30% tem lá seu encanto. li alguns versos antigos -- abandonei os versos pela falta de síntese -- e percebi que era bonito estar apaixonado. normalmente eu escrevia versos quando estava apaixonado. tem gente que corta o cabelo, tem gente que compra roupa, tem gente que emagrece, tem gente que vai aprender um instrumento, eu escrevia versos quando estava apaixonado. e eram coisas extremamente pessoais e cheias de referências internas. sempre achei que eram pedantes, mas agora nem os acho tanto. talvez porque estivesse apaixonado e evitasse dizer essas coisas em conversas ordinárias por achá-las extremamente irritantes.

a linha de teu nariz, conjunção de teus olhos e olheiras.
as sobrancelhas que esperam e o cabelo que cai.
algumas planícies saturadas em cor até o teu sorriso.
o teu sorriso que está a revelia, terra-média.
longe e quase só. estica o canto da boca até próximo das orelhas
e ouvirá elogios.
esses lugares que parecem bases de lançamento de foguetes,
porque estão todas próximas às estrelas.


acho que o trauma de tantos ressentimentos e mágoas me tirou um pouco a coragem de escrever versos. acabo me achando extremamente tolo quando me pego escrevendo: "ih, o márcio está escrevendo versos. deve estar apaixonado..." e depois todos esperam os versos tristes da incompletude e a volta para a prosa.

amiga, é isso que dói: a alma.
a gente imagina mil pilulas coloridas que possam compensar,
mas nunca é suficiente; nunca basta para cessar completamente
essa dorzinha.

a gente inventa música e letra para querer representar
mas sempre faltam detalhes
aí a gente monta cd's e antologias
pensando que representará plenamente a dor.
mas no fundo é só uma colcha de retalhos.

amiga, é a alma que vai doendo diferente
por dia e tem dias que a gente esquece
porque a dor dá tréguas mas não perdão.
e vamos esquecendo,
inventamos os vários tipos de analgésicos
e suportarmos mesmo sem eles
porque antes de tudo podemos aliviar a de outros.


talvez eu não seja muito feito para escrever versos mesmo. a prosa acaba sendo o melhor viveiro para as almas famigeradas. o verso sonha e eu cansei um pouco de sonhar demais.

penso se a nossa vida não é sonhada por demais,
se ela está se liquefazendo de tantos planos e invenção.
se ela é uma grande fuga dos reais problemas do dia-a-dia.

esta vida sonhada
em que há sempre uma trilha sonora,
em que há poesia em cada palavra,
em que há drama em cada ação,
em que me aproprio dos conceitos e normas
e os faço mais divertidos,
em que há tanta esperança,
mas tanta,
que se desconfia.


talvez não tenha desistido de escrever versos. o dia de hoje é para escrever versos. espero que todos que possam escrevam o quanto podem as coisas que transbordam a cabeça e o coração.

sonhei que sabias quem eu era
e que tinhas segurado as minhas mãos para me dizer
que, apesar de tudo, não era de teu interesse julgar.
sonhei que sabias quem eu era
pois era uma condição do amor pleno.

se o amor fosse uma idéia, talvez não sonhássemos
com tanta freqüência. porque não necessitaríamos
de tanto tempo para compreendê-lo, em vão.
sonhei que o conhecimento era uma forma de amar.

e se tivéssemos um guia prático,
ainda gostaríamos que fosse absurdo
abusar de tanta técnica e resultados.
porque o bom amor está à revelia
de sua total realização.

talvez, o amor esteja na estrutura
simples de um gesto como um beijo,
um abraço,
olhares,
e no sono justo para alguém que trabalhou o dia inteiro.

ou talvez no simples desejo que fosse perfeito.

feliz dia dos namorados a todos !