quinta-feira, junho 17, 2004
 
:: luiza

faz um frio danado nesta cidade estes dias. disse-me o barbeiro que só havia sentido frio assim em dois momentos de sua vida: quando abriu o estabelecimento e quando um acidente de carro quase lhe amputara um braço. estava eu sentado em sua cadeira vendo a mudança que estava fazendo nas madeixas. pedi com 90% de certeza: "tira tudo!" sua experiência considerou os 10% restante e ele começou a negociar comigo. acabei cortando metade. mas com o frio como se negocia?

ele costuma ouvir uma rádio quase exclusivamente de canções dos anos 80. lembrei-me de você. nem tanto pelos 80, mas pelo fato de estar tocando um rádio num som quase despercebível. a gente conversava sobre o frio e eu lembrando da sua voz e essas expressões que você vai pegando por aí e reinventa. ia comentar com ele: "eu tenho uma amiga que trabalha em rádio". mas o que dizer depois? ele muito experiente sabia levar uma conversa. deixei.

dentro das minhas preocupações que corriam paralelo a conversa, ocorreu-me que este mês não ando bem das pernas financeiramente. ano passado, lembro-me de ter lhe dado um livro, talvez henry james, talvez austen, não estou certo. esse ano provavelmente só vou ligar e tentar dizer o quanto é importante mas sem conseguir com a eficência preterida. gosto do meu barbeiro porque a eficiência, para ele, está diretamente ligada a uma boa sessão de corte, num bem estar espiritual para ambos, tesoura e capilares. talvez não seja o melhor, mas pensei em escrever um texto, esse texto aliás.

talvez eu veja o meu barbeiro mais que a você. já o conheço há anos. antes eu tinha um cabelo desgrenhado. comecei a gostar do meu cabelo depois que o conheci. com você acontece algo parecido, desde que a conheci gosto mais de alguma coisa em mim que não sei bem o que é. vou me lembrando das pessoas aos poucos, esquecendo também. saudade é manufatura em excesso hoje em dia. tinha que baixar o preço.

pago o barbeiro. ele guarda sem contar, já havia me agradecido muito antes, a partir do momento em que entrei no seu estabelecimento, em cada tesourada, penteada, vista precisa. sabe que vai me rever no mês que vem. e eu, quando a reverei? nesses dias frios a gente sempre encontra motivos para ficar em casa, nos resguardar para dias melhores, quentes talvez. o barbeiro diz:

-- esqueceu o casaco !

penso que é até uma boa idéia. vou-lhe dar um casaco, luiza.

p.s. feliz aniversário adiantado!