segunda-feira, abril 28, 2003
 
::Bastidores #1: O Figurante Profissional

Já comentei que, além de arremedo de produtora, sou a maquiadora do filme? Pois sou, e nada me credencia a isso além do fato de eu ter minha própria maquiagem e saber mais ou menos o que fazer com ela. Dá pra passar um pozinho básico na galera, mas não passa muito disso.
Há 3 dias da filmagem o diretor decide fazer uma cena com 8 figurantes em trajes de gala. E não temos tempo nem dinheiro pra contratar um maquiador de vardade. Tudo bem, a Mari vai lá e dá um jeitinho nos caras, e as meninas a gente pede pra já virem maquiadas. Simples.
Mas as meninas não vêm maquiadas. Na verdade as meninas não vêm, ponto. Simplesmente não aparecem. Aí a gente pega quem tava por ali mesmo, o que inclui uma amiga do fotógrafo e a nossa assistente de elétrica – japonesa. E aí chegam os caras e um deles é negro. Quero deixar claro que não tenho preconceito e que a cor de ninguém nunca me incomodou, mas, PORRA, como é que eu vou maquiar tons de pele tão diferentes com meu único e modesto pó clarinho? Pois é, eu não vou, então eu fingi que passei pó no cara e na menina eu mexi bem pouco na pele e botei um batom vermelhão e uns olhos bem pretos e até que ficou bom. E nesse ponto aparece o homem-título desse post, o já consagrado Figurante Profissional.
O Figurante Profissional, como o nome já diz, é um figurante profissional: o cara faz figuração há anos, se orgulha do seu grande talento que é dançar sem música e age como se ter feito figuração em, sei lá, Mico Preto, fizesse dele um pessoa melhor. Eu não devia estar falando desse jeito do sujeito que foi gente boa, ajudou a gente de graça e tal, mas o fato é que ele é aquele tipo de cara que fica dando piscadinhas sedutoras e falando que tal artista é gente boa, mas tal atriz é uma mocréia histérica, um desses caras meio marqueteiros, meio deslumbrados fingindo que são super descolados dentro do show-bizz, enfim, um xaropão. Mas um xaropão que caiu no nosso blefe e acreditou que estava lidando com uma equipe do mais alto gabarito, a altura do padrão globo de qualidade a que ele estava acostumado. Todo mundo ali era recém-formado ou tava no 2º, 3º ano, mas acho que ele não notou e parecia que estava lidando com a equipe do Walter Salles, era uma coisa bastante engraçada de se ver.
Bom, eu já tinha terminado com os outro dois mais complicados e finalmente respirava aliviada quando fui lá passar pó no dito cujo. E vi que ele tinha uma espinha gigante recém-estourada que tava sangrando e com pus. Respirei fundo, fui lá e passei um corretivo, mas nem mexi muito porque, como já mencionei, eu não sou maquiadora e não faço a menor idéia de como lidar com uma espinha estourada, ainda mais de uma cara do naipe do Figurante Profissional. Mas não, ele era um Profissional, afinal de contas, ele não se contentava com corretivo, ele queria mais, sempre mais, ele queria band-aid cor da pele, base, pó. E retoques, muitos retoques, esse homem não me deixou em paz um só minuto, acho que ele não entendeu que eu tinha outras coisas pra fazer, tipo produção de set, esse detalhe tão importante.
E o resultado é que o Figurante Profissional ficava palpitando e me dando dicas de como proceder, e eu balançava a cabeça com um ar sério e dizia, não, eu não vou mexer, melhor não machucar sua pele, em vez de fazer assim vou fazer assado, dizia tudo isso com cara de quem tem pós-doutorado em correção de espinhas, o fim da história é que passei um corretivo ordinário no cara e deixei ele pensando que era o Brad Pitt e com a certeza absoluta que eu era o Duda Molinos, atuação impecável, acho que eu merecia um Oscar. Porque não me basta ser figurante, eu quero é ser Protagonista Profissional.