quinta-feira, agosto 26, 2004
 
Amore,

Um certo dia, pensei que o blog ia ser um lugar para as nossas cartas. Porque é disso que eu gosto mesmo. Mas virtual, jamais. Gosto do charme de pegar papéis bonitos, canetas-de-cores-da-sorte, e escrever à meia-luz, ouvindo um som inspirador.

Uma coisa não aconteceu. A outra tampouco. E isso acabou fazendo com que eu me distanciasse de você. Não me agrada perder "meu amor de carnaval". Mas tenho tido dificuldade para voltar. Porque estou bem no meu mundo. E tem sido coisa de mundo interno, de prazeres pequenos e específicos.

Quando digo "bem" não quero dizer exatamente "feliz". Não quero dizer completa. Bem é bem dentro mesmo. Tenho respeitado meus dias de luto. O Fellini morreu de maneira trágica e a cena dele morto tem me feito mal à beça. Em flashs. Imagens rápidas. Coisa de fazer chorar, sempre. Coisa de deixar angústia. Coisa de fazer querer cama e família. Tenho falado de trauma na terapia. Descobri que não existe morte no inconsciente. Achei lindo. Vou ver se invisto neste impulso de vida.

Mesmo assim, fui ao show do Ney e do Pedro Luís e a Parede. Segundo o cara que anunciou o show, com o palco escuro: "Ney Matogrosso e Pedro Luis e a Parede e banda!". E banda disse o cidadão. Esbocei um sorriso. Foi um espetáculo, Marcito. Uma energia que me deixou pensando na vida. Em vida. E me surgiu uma vontade enorme de escrever pra você.

Agora estou com pressa. Eu tenho tido muita pressa. Falo que é trabalho, mas acho mesmo que estou correndo pra encontrar mais vida. Penso que falar contigo pode ser uma forma de não correr e, mesmo assim, descobrir que há força e carinho. Caminhos.

Adoro você, querido.